Decorridos vários anos desde o início do alargamento da consciência coletiva para a proteção ambiental e dos ecossistemas, assistimos, entretanto, ao surgimento e posterior dissipação da utilização do selo verde/eco/bio como característica diferenciadora de bens ou serviços que se comprometiam com métodos de produção ou características amigas do ambiente. Esta discriminação positiva, insuficientemente aferida ou confirmada pela demonstração científica, ficou genericamente conhecida como greenwashing e que, mesmo assim, permitiu e permite gerar e explorar novos ciclos de consumo, alavancados na iliteracia ou conhecimento superficial do consumidor.

Num segundo movimento, muito mais abrangente, sustentado por Diretivas Europeias, nomeadamente a CSRD (Diretiva UE 2022/2464 – Diretiva de Reporte Corporativo de Sustentabilidade), surgiu o tema da Sustentabilidade, encarado do ponto de vista conceptual com mais rigor do que o selo verde, à procura de métricas de avaliação e classificação igualmente importantes, para além dos resultados financeiros ou a geração de valor. Apesar do grande objetivo ser o financiamento sustentável da União Europeia, aproveitou-se a boleia para construir um novo modelo de consumo. Este novo selo de qualidade e/ou de boa práticas, inicialmente apenas para as grandes empresas, beneficiará da possibilidade de ser escrutinado de uma forma alargada, não devendo ser encarado como mais uma formalidade de certificação, mas sim do transversal envolvimento de todos os intervenientes, desde os produtores, intermediários, consumidores e todos aqueles que, no seu conjunto, constituem os principais interessados num bom índice de sustentabilidade: “Todos nós e todos aqueles que vêm imediatamente a seguir a nós”.

A sustentabilidade do consumo é um tema absolutamente vital numa realidade planetária frenética, alicerçada numa teoria económica que não aceita nem ensina a população a preparar-se convenientemente para os ciclos de contração, perda de valor, poupança, ou a desenvolver mecanismos redundantes para assegurar o acesso a bens de primeira necessidade. A acumulação de stocks de matérias-primas essenciais, a dependência total de cadeias de abastecimento de grande distância, a insuficiência energética e alimentar, para citar alguns exemplos, colocam o consumidor comum num papel de completa e total dependência. A única coisa que lhe resta, salvo as quase extintas economias de autoconsumo assentes na pequena propriedade de um Portugal rural (mas não provinciano como alguns gostam de o chamar) é a exigência, enquanto Consumidor Final: pedir que o trajeto de qualquer produto ou serviço se possa desenvolver sem comprometer a sua repetição ou a durabilidade de todos aqueles que permitem a sua existência.

O que permite, então, a existência do produto turístico açoriano?

Os Açorianos sorriem quando lhes falam dos Açores. Os Portugueses emigrados sorriem quando lhes falam de Portugal. Todos nós sorrimos quando nos falam de alguma coisa ou de alguém que nos lembre um lugar, uma pessoa, uma casa.

Eu vou pegar na tua casa, na tua rua, na tua freguesia, na tua cidade e vou vendê-la a quem quiser vê-la, até deixar de ser tua. Passa a ser de todos e a não ser de ninguém. A tua sala, a tua cozinha e o teu quarto podem ser alugados. O teu silêncio e o teu descanso transformam-se em viajantes perdidos. Eu abro a porta a quem me vem visitar, fico feliz, ofereço-lhe queijo e vinho. Quem se lembra de aparecer é bem-vindo. Quem nunca se esquece? A esses, é dedicado este blogue.