A densidade populacional açoriana é condicionada pela geografia e orografia do Arquipélago, que por sua vez determinam a exposição climatérica e a distribuição dos agregados populacionais, limitando as zonas de boa habitabilidade relativamente à área total de cada ilha. Por este motivo, alguns indicadores de sustentabilidade turística como a densidade devem ser adaptados em função do conhecimento das áreas habitáveis e visitáveis, das principais vias de circulação e da acessibilidade aos espaços de utilização lúdica ou de usufruto, nomeadamente as zonas balneares, as reservas da biosfera ou locais de elevado interesse como património cultural e natural. Sem essa delimitação, fará mais sentido analisar a intensidade turística como principal indicador de sustentabilidade social e ambiental, procurando conhecer a capacidade de carga de cada concelho e os limites de visitação a partir dos quais é gerada uma perceção negativa no que se refere à qualidade de vida da população local.
A intensidade turística deve ser analisada cuidadosamente em duas vertentes: ambiental e social. Na primeira, é fundamental ser calculada e integrada a pegada carbónica gerada numa visita com estadia média de 3 noites, nomeadamente o transporte aéreo, transporte automóvel individual, cadeia de fornecimento e transporte de alimentos, abastecimento de água e aumento da geração e depósito de resíduos. Atualmente, apenas a Dinamarca e a Nova Zelândia dispõem de informação oficial relativamente às emissões geradas pela visita turística.
De acordo com um trabalho global conduzido pela investigadora Ya-Yen Sun, publicado na Nature Publishing Group UK, em apenas seis anos (2013-2019), as emissões globais do turismo aumentaram para 8,8%, apesar de vários apelos, declarações e iniciativas para a descarbonização. Não se observam sinais de abrandamento, antes pelo contrário e as emissões do turismo continuam a aumentar rapidamente, a um ritmo de 3,5% por ano. A autora conclui que a existência de uma base de dados nacional sobre as emissões turísticas fará com que as atuais políticas passem de um modelo que faz a apologia do crescimento contínuo, enfatizando o Produto Interno Bruto e a criação de emprego, para uma abordagem sustentável.
https://www.nature.com/articles/s41558-018-0141-x
Esta apologia do crescimento contínuo deve igualmente ser analisada pela vertente social, no que se refere à distribuição da riqueza extraída, da remuneração e diversificação dos empregos criados e sobretudo para o empobrecimento sócio-cultural de uma economia assente em dormidas, transporte e alimentação. Uma das mais preciosas heranças da população açoriana – o seu carácter e tenacidade – vai amolecendo rapidamente à medida que o excesso de transporte aéreo faz iludir a insularidade e os vulcões são figurantes num chão fértil entregue às infestantes vegetais ou de cimento. Sabendo hoje que a distribuição de riqueza da hotelaria e restauração é baixa, significa que o dinheiro do Turista é para alguns, mas a pegada é para todos.
Se for contínuo e não sazonal o elevado fluxo de passagem, ao contrário do tempo circunscrito e oportuno em que o urso parado no rio espera os salmões a saltarem-lhe para dentro da boca, rapidamente se perderá a tenacidade açoriana que emergiu da necessidade de sobreviver à adversidade da meterologia, da produção agrícola em solos difíceis – e não basta chamar de Luís de Camões a outro supérfluo aeroporto para recuperar o engenho e arte.
De acordo com o número de dormidas nos estabelecimentos hoteleiros e similares, por 100 habitantes (INE), em Portugal entre 2004 e 2011, a intensidade turística manteve-se relativamente estável, tendo registado níveis compatíveis com o Turismo Sustentável. Até então, apenas as Regiões da Madeira e Algarve apresentavam níveis de intensidade turística marcadamente acima da média do país, nomeadamente acima de 1,5, o que, de acordo com a metodologia proposta pela Comissão Europeia no documento “Environment and Tourism in the Context of Sustainable Development”, reflete turismo insustentável (fonte: INE).
Porém, ao analisarmos os indicadores de sustentabilidade social, nomeadamente a intensidade turística na ilha do Pico durante os últimos 8 anos, observamos que, nos meses de Verão, não apenas iguala como ultrapassa largamente a de várias cidades portuguesas fortemente procuradas a nível mundial, nas quais se começou agora a debater a importância de um modelo de desenvolvimento económico não baseado no sobreturismo.
É importante apresentar e realçar os seguintes dados:
– O número de dormidas em alojamento turístico na ilha do Pico aumentou 335 % entre 2013 e 2023.
– Só no mês de Agosto de 2024 foram registadas oficialmente (excluindo segundas habitações, residentes não habituais e Turismo Rural) 50 397 dormidas, o que corresponde a uma intensidade de 1,58, se considerarmos que cada dormida gera habitualmente uma volta à ilha. Se for considerado também alojamento em Turismo Rural no mínimo idêntico ao do último ano registado (3778 domidas em Agosto de 2021) a mesma intensidade facilmente sobe para 1,67 (milhares de dormidas por 100 habitantes).
Assumindo que quase todas as pessoas que dormem na ilha do Pico dão a volta à ilha, a intensidade turística no Concelho de São Roque do Pico em Agosto de 2024 ultrapassou largamente a de cidades ou modelos do país com problemas de sobreturismo (quase 6 X superior à de Lisboa, 12x a de Faro e apenas 1,6 vezes menor que a do Concelho de Albufeira, um paradigma nacional).
Mesmo alargando o denominador para os três concelhos da ilha, continua a comparar negativamente com Concelhos únicos de muito maior densidade populacional como Ponta Delgada, Funchal, Faro, Lisboa e também com toda a ilha de São Miguel.
| 2013 | 2015 | 2017 | 2019 | 2020 | 2023 | 2024 | ||
| Total | Total | Total | Total | Total | Total | Total | ||
| Ilha do Pico | Hotelaria Tradicional | 42 892 | 46 694 | 58 227 | 66 057 | 24 201 | 77 589 | 68 499 |
| Turismo Espaço Rural | 5 099 | 10 102 | 11 704 | 14 235 | 3 808 | – | – | |
| Alojamento Local | – | 21 420 | 40 026 | 82 028 | 28 967 | 129 542 | 133 376 | |
| Colónias de Férias/ Pousadas de Juv. | 4 845 | 4 691 | 6 158 | 4 943 | 793 | 5 643 | 4 347 | |
| Parques de Campismo | 4 067 | 1 677 | 3 398 | 3 997 | – | 2 994 | 2 889 | |
| Casas de Hóspedes | 4 576 | – | – | – | – | – | – | |
| Alojamentos Particulares | 2 876 | – | – | – | – | – | – | |
| Total | 64 355 | 84 584 | 119 513 | 171 260 | 57 769 | 215 768 | 209 111 | |
| Agosto 2024 | Anual – 2023 | |||
| Dormidas | População residente | Intensidade1 | Dormidas | |
| São Roque do Pico | Estimado (16962-20159) | 3220 | 0,53 -0,63(Vs até 1,58)2 | Estimado (64730-86307) |
| Ilha do Pico | 50 397 | 13 879 | 0,36 | 215 768 |
| Ilha de São Miguel | 412 333 | 133 288 | 0,31(Vs até 0,612) | 2 568 430 |
| Ponta Delgada | 67 229 | 0,31-0,61 | na | |
| Funchal | 624 620 | 105 782 | 0,59 | 6 130 179 |
| Lisboa | 1 575 537 | 545 796 | 0,29 | 15 158 632 |
| Faro | 93 260 | 67 622 | 0,14 | 673 861 |
| Albufeira | 1 202 219 | 44 164 | 2,72 | 7 772 029 |
Fonte: (INE; srea.azores.gov.pt)
É importante os habitantes saberem que o crescimento exponencial da intensidade turística numa zona de baixa densidade populacional e elevada beleza natural como a ilha do Pico reflete a ausência de qualquer Plano de Gestão dos Recursos e salvaguarda da Sustentabilidade para quem visita e para quem é visitado.
É também importante debater a melhor forma de regular os fluxos de visitação e assegurar ao visitante uma experiência autêntica, sem ser baseada no atropelamento da comunidade local, na saturação das acessibilidades da ilha e na perceção de diminuição da qualidade de vida ao longo do ano e de forma franca nos meses estivais.
O investimento em transporte aéreo, promoção hoteleira e promoção imobiliária, colocando o número de camas disponíveis nas ilhas como a principal fonte imediata de riqueza pode ser boa para o desenvolvimento económico a curto prazo, mas historicamente depreciador da qualidade de vida e da diferenciação socioeconómica da população. Vejam-se os exemplo recentes de Lisboa e Porto, em que as suas freguesias foram sujeitas a um processo de gentrificação e descaracterização em tempo recorde, à boleia da dificuldade de reconstrução e reparação dos imóveis nos centros da cidade por uma lei de arrendamento desatualizada, que impedia e continua a impedir o normal funcionamento do mercado de arrendamento convencional e a desviar de forma exagerada os recursos habitacionais para o alojamento turístico.
Os Açores ainda vão a tempo de regular a sua acessibilidade, o modelo de circulação nos espaços públicos de interesse comum, sejam zonas balneares, de reserva ou património natural e assim respeitar a sua capacidade de carga, ao mesmo tempo que evitam a entrega definitiva dos melhores locais da ilha aos promotores imobiliários com público-alvo de elevado poder de compra, tal como aconteceu por exemplo na ilha da Madeira, levando à restrição ou perda de acesso dos residentes, assim como prejuízo da sua qualidade de vida, coesão social, identidade insular e sentimento de pertença.
1 milhares de dormidas/100 habitantes (Fonte: SREA)
2 cada dormida gera uma volta à ilha