Caminho largo quer dizer facilitar a passagem no meio de uma azáfama. Mas as canadas do Pico não são muito largas, antes pelo contrário; mas davam para cruzar dois carros de bois. Agora uma coisa é certa, o Ser Humano gosta de ter em si uma certa grandeza e mandou fazer canadas largas… mas quanto mais larga for a canada, mais pequeno fica o prédio.

O Sr. Fourier tinha as costas largas (muita substância ou propriedade) e foi passar numa canada. Já há muito tempo que não passava tamanha grandeza numa canada do Pico. Mas apesar de se mexer devagar, fazia um vetor como todos os outros, fosse em massa, volume ou energia.

A quantidade de uma qualquer grandeza que passe num determinado local, num determinado tempo é chamada de fluxo. O Sr. Fourier gerava um fluxo de massa baixo, porque se movia devagar. Mas se fosse um dia de Festa, de ir para os matos e fazer almoço na lagoa seria muita gente a passar na canada, logo, um fluxo elevado. É por este motivo que todos nós temos uma certa simpatia pelos fluxos elevados: fazem-nos lembrar os dias de passeio, ou dias de festa, de alegria, exuberância e abundância. Ainda para mais em contraste com a doce solidão, melancolia das ondas e o “viveiro insular” de Nemésio.

A Sazonalidade do Turismo Açoriano é um problema, porque não deixa o fluxo estar elevado o ano inteiro. Não deixa todos os dias serem dias de festa. Ora a médica de família diz que açúcares e torresmos só nos dias de festa. Ela que se fique com a esteatose hepática, com a diabetes e também com as doenças. Para já, o São Pedro ainda protege as ilhas de Inverno, mas com a subida da temperatura e a chegada do clima tropical, só o Homem do Pico pode dizer quando é que vão então ser os dias da festa.

O Sr. Fourier, quando era criança, aprendeu melhor do que ninguém o que era um fluxo elevado (quinze filhos numa casa e ele era o décimo segundo). Fluxo de ruído, algazarra, roupa pelo ar… um pedacinho pequenino de comida a cada um e água… poupada para poder ser pouca e potável.

Os fluxos elevados encontram-se habitualmente em interfaces de transportes (estações, portos ou aeroportos) ou parques comerciais (centros comerciais, grandes superfícies de retalho), locais onde não conseguimos estar mais tempo do que algumas horas e de onde habitualmente saímos cansados ou fustigados. Compreendemos que ter uma loja num Centro Comercial movimentado ou num aeroporto onde o desembarque médio diário é superior a 100 mil passageiros garante a subsistência a muita gente, mas a subsistência já não dá para comprar uma casa.

Por mais pressa que se tenha em tirar conclusões, entretemo-nos com corridas em que mais interessa o posicionamento e não o percurso, quer isto dizer, que na pressa de fechar um tema, a receita mais prática para matar a fome é dicotomizar a questão, tudo ou nada, sim ou não, a favor ou contra. Pois na culinária e nos cinzentos há muitas tonalidades, ou voltando ao Sr. Fourier, muitos gradientes. Este grande homem ajudou a enunciar princípios físicos como a transferência de energia entre dois pontos, tanto maior quanto a diferença de temperatura desses dois locais e da condutividade da sua ligação.

Ora os Açores estão muito quentes, e à volta está um mercado emissor de gente arrepiada e inquieta para se vir aquecer. Quantas mantas são precisas, quantas lareiras vão ser acesas para aquecer tanta gente.

O Sr. Fourier, e talvez muitos o conheçam como o pai do Efeito de Estufa, percebia de calor, de aquecimento global, mas sobretudo de gradientes e de equilíbrios.

Os equilíbrios medem-se em canadas, em dias de Festa, em fígados gordos, mas sobretudo em pessoas.

Os equilíbrios dos ecossistemas medem-se hoje numa dimensão chamada intensidade turística – a proporção entre dormidas em estabelecimentos turísticos (hotelaria, alojamento local e o turismo rural que se perdeu algures em 2021) e as pessoas residentes por dia e por 100 habitantes. É importante saber que a ilha do Pico registou 46 896 dormidas só no mês de Agosto de 2024 (https://srea.azores.gov.pt) e se contarmos com os que andam perdidos em camas rurais facilmente se ultrapassa o número 50 000. Quer isto dizer que para uma estadia média de 3 noites, o Concelho de São Roque do Pico deu passagem a mais de 16 000 pessoas entre canadas e prédios só num dia. Por outras palavras, uma intensidade turística calculada bem superior aos humildes 2.38 de Faro e a caminho das prósperas e inabitáveis Lisboa e Porto com os seus 6.50 e 5.85, respetivamente. Ponta Delgada, com os seus maravilhosos 174 206 desembarques no passado mês de Agosto, consegue, ainda assim, ter uma intensidade inferior, de 4,95.

Era uma vez uma canada onde cabia um Concelho inteiro em dias de festa. Essa canada cresceu 321% entre 2014 e 2023. Querem ver o que aconteceu aos prédios à volta dela?

Para já vamos vendo à distância Creta, Tenerife, Ibiza ou Sardenha, infelizmente, a derreter de calor.